A INOVAÇÃO TECNOLÓGICA NO BRASIL
A Indústria em Busca da Competitividade Global

Resenha do Livro editado pela ANPEI

Periodicamente a Anpei edita seus estudos de fundo, que focam pontos específicos do cenário tecnológico nacional. Em 2005 o estudo centralizou-se na discussão das causas dos investimentos historicamente baixos das empresas brasileiras em pesquisa e desenvolvimento e na apresentação de um conjunto de propostas que pudessem contribuir para mudar esse quadro, tendo como base a Pintec – Pesquisa de Inovação Tecnológica, primeira pesquisa sobre inovação do IBGE referente ao universo da indústria no país, publicada em 2002.

Recentemente a Anpei lançou um novo estudo, contratada junto aos professores e consultores Mauro Arruda, Roberto Vermulm e Sandra Hollanda – A Inovação Tecnológica no Brasil: A Indústria em Busca da Competitividade Global. Neste estudo, são inicialmente apresentados, analisados e comentados os dados levantados pelo IBGE na segunda pesquisa sobre inovação no Brasil (Pintec – II). Em seguida é feita uma análise comparativa atualizada desses instrumentos com o apoio equivalente dado por outros países às suas empresas. A partir daí é comentada a nova legislação e os programas recentes do Brasil de fomento à inovação, procurando detalhar os seus pontos fortes e fracos e sugestões de melhoria. Finalmente são apresentadas propostas da ANPEI visando transformar as intenções contidas nas recentes ações de fomento, em um real e acelerado aumento da competitividade tecnológica das empresas brasileiras no âmbito nacional e internacional e os ganhos sustentados advindos de uma bem planejada e bem efetivada política de inovação para o país.

A INOVAÇÃO TECNOLÓGICA NA INDÚSTRIA BRASILEIRA

O primeiro tema propõe-se a interpretar os principais resultados da segunda pesquisa de inovação do IBGE, referente ao período 2001-2003, e compará-los com os resultados encontrados no levantamento do período 1998-2000. Dessa comparação, constatou-se que ainda é baixa a taxa de inovação na indústria brasileira. Embora essa taxa tenha aumentado um pouco entre os períodos 1998-2000 e 2001-2003, cabe chamar a atenção para a diminuição relativa do número de empresas inovadoras que realizaram atividades inovativas, sobretudo de P&D interna, apesar de que algumas das empresas que já haviam incorporado a realização de P&D à sua estratégia empresarial aumentaram o montante médio de investimento em P&D e empregaram, em média, mais pessoas dedicadas a essa atividade.

Isso indica que a realização de P&D tornou-se mais seletiva, concentrando-se em um número reduzido de empresas, pertencentes a setores industriais mais intensivos em tecnologia. Em termos gerais, a concentração da atividade de P&D e da inovação não é uma peculiaridade brasileira. O mesmo pode ser observado nos países desenvolvidos e em países emergentes que estão acelerando o ritmo dos seus investimentos em geração de conhecimento e em tecnologia. Os setores que mais concentram as atividades de P&D são o automobilístico, o de TIC e o farmacêutico, com o emprego da biotecnologia, da nanotecnologia e da bioinformática. Além disso, nesses setores, são poucas as empresas que respondem pela maior parte dos investimentos realizados.

O meio empresarial brasileiro sempre se mostrou tímido no que diz respeito aos investimentos em atividades inovativas. Estes se limitam em grande parte à aquisição de máquinas e equipamentos destinados a melhorar a eficiência do processo produtivo. Salvo importantes exceções, não faz parte da cultura e da postura da maioria das empresas localizadas no país, principalmente nas de capital nacional, o investimento na geração de conhecimentos e na sua utilização para o aumento da sua competitividade nos mercados em que atuam.

Se desde os anos 80 o Brasil foi perdendo a capacidade de pensar o longo prazo devido à crise econômica, nos anos 90 o pensamento econômico prevalecente sustentou uma significativa redução do papel do Estado e da sua interferência nos processos econômicos. Assim, juntamente com a crise do modelo de desenvolvimento e o surgimento de um discurso contrário à intervenção do Estado na economia, houve uma completa desestruturação da capacidade de planejamento do Estado brasileiro.

Os governos passaram a se preocupar quase que exclusivamente com as políticas de curto prazo, nas quais só importava reduzir os gastos do setor público, sobretudo com a máquina administrativa. Nesse ambiente, os profissionais do setor público foram submetidos a um processo de desvalorização e a uma política de contenção salarial, que resultou num aparelho de estado desestruturado e desmobilizado.

É evidente que esse quadro não derivou apenas de condicionantes econômicos; as alianças políticas fragmentaram o aparelho de estado e inviabilizaram as articulações entre as várias instituições que compõem o arcabouço institucional, em especial aquele relativo à definição e implementação da política industrial e tecnológica.

Como consequência, as instituições públicas se encontram fragmentadas e desprovidas de recursos humanos e materiais para empreender o planejamento de longo prazo e eleger prioridades – como fizeram outros tantos países, com destaque para a Coréia do Sul, que foi persistente na condução dos seus planos qüinqüenais de desenvolvimento e hoje é um país que consegue competir com os países desenvolvidos em vários mercados.

O país precisa estimular os setores industriais de maior intensidade tecnológica e inovar em produtos, procurando se distanciar dos produtos padronizados, em que o principal fator de concorrência no mercado global é o preço. Ao mesmo tempo, deve buscar manter os ganhos crescentes de eficiência produtiva nos setores tradicionais. Ou seja, o Brasil deve caminhar na direção do adensamento tecnológico tanto dos setores industriais tradicionais como dos segmentos de mais elevada intensidade tecnológica.

Para tanto, há que se pensar numa perspectiva de longo prazo que é, por definição, a perspectiva do investimento em criação de capacidade produtiva e em capacitação tecnológica. Evidentemente, dadas as restrições de natureza financeira da economia brasileira, não é possível estimular o investimento em todos os setores simultaneamente. O investimento deve ocorrer de forma organizada, negociada entre o setor empresarial e o governo. E a componente tecnológica deve ser um dos pilares dessa nova política de governo, tal como foi definido no documento oficial da Política Industrial, Tecnológica e de Comércio Exterior do atual governo.

O governo brasileiro e as empresas precisam fazer um esforço no sentido de reconstruir a sua capacitação em planejar, definir prioridades e metas e em implementar ações de médio e longo prazo.

O que se tem visto é uma grande desorganização na execução das ações públicas na área de ciência, tecnologia e inovação. Os recursos financeiros disponíveis, que são insuficientes, são alocados de forma não planejada e pulverizada, incapazes de promover a mudança estrutural necessária. Se por um lado o setor privado revela insuficiente capacitação tecnológica, por outro, a transformação para uma economia industrial mais dinâmica sob o ponto de vista da inovação exigirá uma adequada e competente participação e orquestração do setor público.

Continuação…