Nos últimos anos, as startups brasileiras começaram a atrair empresas de capital de risco do Vale do Silício. Mas, ao mesmo tempo, setores promissores da área de tecnologia têm sido ignorados. Embora empresas privadas estejam investindo em e-commerce e em outras áreas importantes, campos como nanotecnologia, robótica e tecnologia da informação têm sido negligenciados. Em vez de deixar o financiamento à inovação a cargo das empresas privadas, as autoridades brasileiras decidiram, anos atrás, comprar participações em empresas nascentes e dirigi-las. Em 2007, o BNDES deu início ao Criatec, um fundo que tem como objetivo incentivar as startups. Investidores estrangeiros sempre foram bem vindos, mas até agora eles não apareceram – o que fez o Brasil dobrar sua meta para promover a tecnologia. Se o governo assumiu a liderança, não foi por falta de interesse do capital privado. Nos dois últimos anos, os investidores da Redpoint Ventures, Accel Partners e Sequoia mostraram-se muito ativos no país, assim como europeus e israelenses. Apesar disso, segundo o BNDES, há um grande vazio no financiamento de startups. “Eles estão investindo vorazmente em empresas que copiaram modelos que já existem. Não se trata de inovação tecnológica”, diz Robert Binder, sócio da Antera Gestão de Recursos que, junto com a Inseed Investimentos faz a gestão do fundo Criatec, cujo principal investidor é o BNDES. As empresas de capital de risco que investem no boom das startups do Brasil consideram o Criatec uma iniciativa bem-intencionada. O sócio fundador da Monashees, Eric Acher, e Anderson Thees, da Redpoint Ventures, elogiam o fundo, mas nunca investiram. “Não acho que o Vale do Silício esteja procurando inovação de tecnologia no Brasil”, disse Acher, acrescentando que o retorno ainda não justificou o grau de risco implícito. Falta de interesse – O BNDES previa essa aversão ao risco quando criou o Criatec. “Nem mesmo os fundos brasileiros mostram interesse em empresas que ainda estão nos estágios iniciais”, diz Eduardo Rath Fingerl, ex-diretor de mercado de capitais do BNDES e um dos arquitetos do fundo. “Sabíamos que teria de ser uma iniciativa do BNDES.” Pequenas demais – Alguns investidores estrangeiros já começam a avaliar a carteira do Criatec I. Segundo fontes, a Intel Capital está analisando a Geofusion, empresa de software de inteligência geográfica. Neste ano, a Kleiner Perkins Caufield & Byers mostrou-se interessada na empresa de agrotóxicos Bug Agentes Biológicos, mas desistiu da startup brasileira porque seu faturamento anual era inferior a US$ 10 milhões. “Todos querem encontrar companhias com receita de US$ 10 milhões a US$ 15 milhões. Mas não existe um fluxo de negócios nessas dimensões”, afirmou uma pessoa a par dos planos da Kleiner Perkins. Segundo estimativas, só uma empresa do Criatec I, de um total de 33, terá receita superior a US$ 10 milhões em 2012. Ao criar o fundo, o BNDES também pensou em ajudar acadêmicos com grandes ideias e sem financiamento. “O Brasil tem muita gente inteligente”, diz Fingerl, que se aposentou do BNDES no ano passado, mas “a dificuldade é eliminar a brecha entre a comunidade científica e a de negócios”. O banco tem poder de veto sobre as decisões da maioria das companhias, embora seja um acionista minoritário. Entretanto, mostra-se bastante flexível na busca de parcerias de investimentos. A influência política do banco nas companhias do Criatec “é totalmente negociável”, segundo Márcio Spata, gerente do departamento de fundos de investimento da BNDESPar, braço de participações do BNDES. “Estamos sempre dispostos a mudar nossos direitos” para propostas adequadas. Eduardo Klingelhoefer de Sá, diretor do departamento de fundos do BNDES, disse: “Ficaríamos muito satisfeitos com a vinda de investidores privados para que pudéssemos reduzir as nossas participações”. (Com informações do The New York Times)