13/03/2017

A maior popularização da impressão 3D no país e no mundo está transformando diretamente os modelos de negócios de empresas e indústrias de diferentes setores. Com a fabricação descentralizada e produtos individualizados, os direitos de proteção e propriedade intelectual se apresentam como grandes desafios, que devem ser debatidos e estudados. O assunto impacta as relações de interação entre diferentes atores do Sistema Nacional de Inovação (SNI), como instituições científicas e tecnológicas (ICTs), empresas, universidades e startups, por exemplo.

No último dia 7 de março, os Comitês de Interação ICT-Empresa e de Gestão da PI realizaram uma reunião conjunta na Bosch em Campinas – SP, na qual especialistas apresentaram suas experiências na área e os participantes debateram sobre os desafios da impressão 3D.

Mariana Corrêa, da Bosch, empresa anfitriã do encontro, deu início às palestras do dia e apresentou uma impressora 3D da marca Dremel para os presentes, que tiveram a oportunidade de conferir a impressão de uma peça “ao vivo” durante a reunião. De acordo com a especialista da área de marketing, a fabricação digital a partir da Dremel é bastante voltada para educação na Europa, na Ásia e está chegando agora na América Latina. “O segundo modelo da impressora digital da Dremel ainda não está sendo comercializado no Brasil. Estamos analisando o mercado e questões técnicas. A previsão de chegada é no ano que vem. Ela já está no México, na Colômbia e, no mês que vem, deve chegar ao Chile”, disse Mariana.

Logo em seguida, Luciana Hashiba, conselheira da Web Fab, fez uma apresentação sobre a cultura do movimento maker, que é baseada no DIY – faça você mesmo – e no DIWO – faça você mesmo com os outros. A fabricação descentralizada, produtos individualizados e a importância do conhecimento de “como produzir” são importantes características desse movimento. “Isso faz parte da nova economia. As pessoas não têm as coisas, mas têm acesso a elas. E os Fab Labs têm um papel muito importante nesse processo”, explicou a especialista, que também abordou o impacto social gerado a partir dessa mudança tecnológica. “É uma grande revolução, com potencial de impacto para as indústrias e empresas, que precisarão se adaptar”.

Continuando as apresentações do período da manhã, a vice-coordenadora do Comitê de Interação ICT-Empresa, Patrícia Leal Gestic, que participou de uma missão da Fapesp ao USPTO (United States Patent and Trademark Office) e sua Academia (The Global Intellectual Property Academy of USPTO) em outubro do ano passado, compartilhou a sua experiência com os participantes, ressaltando a abordagem do impacto da impressora 3D no mundo.

“As possibilidades de design permitidas pela tecnologia 3D são infinitas, já que é possível imprimir peças complexas, impossíveis de serem montadas com tecnologias tradicionais. Mas, o grande desafio dessa tecnologia disruptiva são as questões legais de proteção e patente. Isso acontece, principalmente, pelo compartilhamento de projetos digitais de peças e utensílios diversos, que podem ser impressos em qualquer impressora”, explicou Patrícia.

O tema da regulação sobre esse tipo de tecnologia ainda é muito incipiente, de modo que, mesmo nos Estados Unidos, não há leis claras e aplicáveis a todos os casos. Um dos pontos de complexidade se refere a quem é o infrator, uma vez que existe o indivíduo que disponibiliza o arquivo CAD – 3D, outro que produz e, ainda, outro pode utilizar. Caso seja realizada a venda do produto final, gerando problemas de desvio de clientela, a infração se torna clara.

Essa discussão traz para a indústria um cenário muito parecido com o que o mercado da música enfrentou quando surgiu o compartilhamento de arquivos.

A apresentação de Marcos Gravatim, gerente regional da Stratasys, fabricante de impressoras 3D, foi repleta de vídeos explicativos sobre diferentes tecnologias de impressão. Além disso, Marcos trouxe diversas peças impressas para demonstrar para os participantes, que puderam sentir nas mãos as características de cada material utilizado.

“Em um Airbus, por exemplo, são utilizadas peças que saem da impressora e vão direto para o ar. Em máquinas pesadas são utilizados materiais fortes e resistentes, como o aço”, disse Marcos, que também comentou que o Titânio é utilizado para a fabricação de próteses em impressoras 3D, no entanto, no Brasil, essa técnica ainda não é liberada pela Anvisa, que teria que aprovar a impressora, o material e o processo. “Mas esse não é o procedimento dela. A Anvisa aprova apenas produtos prontos, mas as próteses impressas em 3D são únicas para cada paciente”.

Maurício Batista, consultor técnico de patentes da Clarke, Modet & Co. apresentou algumas definições e a evolução da impressão 3D e do estágio dessa tecnologia. De acordo com o que foi exposto, é interessante notar que as primeiras patentes para esta tecnologia foram depositadas ainda no início dos anos 80, quando eram utilizados mais polímeros como matéria prima para a impressão, sendo qu os metais começaram a ser inseridos a partir do ano 2000. O consultor da Clarke Modet também apontou a importância do debate sobre as novas formas de proteção. “É um grande desafio. Por isso, é fundamental discutirmos a questão de segurança digital. Como vamos fazer isso? Reforçando a política? Criando cláusulas de confidencialidade? Quando um arquivo digital com um projeto é vendido, que direitos e responsabilidades tem quem o adquire?”, questionou Maurício.

No período da tarde, o grupo debateu sobre as informações compartilhadas pela manhã. Dentre outras colaborações e discussões, Alex Borro, da 3M, compartilhou a experiência da empresa, que recentemente colocou no mercado a primeira peça comercial em impressora 3D do mundo feita pela 3M. “Trata-se de um modelo para a área de pós-venda do mercado automotivo. Como são produtos utilizados em oficinas, a maior característica necessária é robustez e conseguimos, com a impressora 3D, atingir esse resultado. Tivemos bastante aceitação e economizamos muito, pois trata-se de um produto de pouca escala e esse método de fabricação o tornou comercialmente viável”, contou Alex.

Foi possível notar que há diversas implicações para o ambiente de inovação ao se tratar da inserção de novas tecnologias. Para o tema da interação ICT-Empresa, foi avaliado que para as ICTs que estiverem preparadas para executar de forma correta o uso das impressoras 3D, há o potencial de estabelecimento de parcerias de vanguarda, sendo ainda importante ter clareza sobre aplicação de normas para segurança jurídica ao contratar com empresas.

Já para o tema da propriedade intelectual, há um vasto campo de discussão sobre a aplicação das normas em nível nacional e global. Eneida Barbare, coordenadora do Comitê de Gestão da PI da Anpei disse que o INPI será contatado e serão promovidas outras reuniões visando aprofundar o assunto.

Após o debate, os participantes tiveram a oportunidade de realizar uma visita técnica pelo laboratório da Bosch, que realiza diversos testes com as centrais de comando de motores, expondo os veículos a diversas situações, como temperaturas muito altas ou extremamente baixas, por exemplo.

O encontro foi moderado pelo coordenador e a vice-coordenadora do Comitê de Interação ICT-Empresa, Leonardo Garnica, gerente de sistemas de inovação da Natura, e Patrícia Leal Gestic, diretora de propriedade intelectual da Inova Unicamp, e pela coordenadora e o vice-coordenador do Comitê de Gestão da PI, Eneida Berbare, engenheira especialista de propriedade intelectual da Braskem, e Leandro Mandu, engenheiro de propriedade intelectual e inovação da Bosch e anfitrião da reunião.