A primeira reunião do Comitê Interação ICT Empresa teve um caráter muito especial. Com cerca de 200 inscritos, o encontro que aconteceu na última terça-feira, 19 de março, contou com a ilustre presença do Prof. Leandro Karnal, docente do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas da Universidade Estadual de Campinas (IFCH Unicamp), que palestrou sobre “conhecimento, trabalho e tempo no mundo contemporâneo”.

 

Abertura

 

Na abertura do evento, Alessandro Rizzato, Gerente de Relações Externas da Solvay e coordenador do tema, e Patrícia Leal, Diretora de PI da Agência Inova Unicamp e vice-coordenadora, ressaltaram a importância dos encontros do Comitê, um ambiente principalmente de trocas e geração de valor pela a rede.

 

O Comitê ICT Empresa está ativo desde 2007, e nesses últimos 11 anos, tem trabalhado para identificar e difundir as melhores práticas e construir agendas integradas para o avanço da inovação. São produtos desse tema o Guia de Interação ICT Empresa, o Mapa de Inovação 2.0, e os Indicadores Socioeconômicos na Interação ICT Empresa.

 

Newton Frateschi, diretor da ANPEI e diretor executivo da Agência Inova Unicamp, também destacou o trabalho da ANPEI, e reforçou o papel das universidades públicas, como a Unicamp, em incentivar parcerias com o setor empresarial, a fim de transformar o conhecimento gerado em potenciais produtos e serviços.

 

Conhecimento, trabalho e tempo no mundo contemporâneo

 

O destaque da tarde foi a participação do Leandro Karnal, historiador e professor da Unicamp, que agradeceu o convite da universidade e da ANPEI. Com muita espiritualidade, o intelectual conduziu a palestra de forma leve, trazendo o filósofo Zygmunt Bauman como base para explicar o mundo líquido, onde não existe mais estabilidade e as certezas são pulverizadas rapidamente, assim como as relações, e portanto as configurações no mercado de trabalho.

 

O professor relacionou essa conjuntura de mudanças aceleradas com a inovação e o seu real propósito. Karnal defendeu que, como o passado significa o amanhã, o mundo passa a criar necessidades artificiais, e dessa forma, inovar só pelo ímpeto de inovar é um erro.  Ainda assim, a inovação é a chave para relacionar-se com esse mundo dinâmico e em constante atualização. Mas como inovar?

 

Karnal apontou a inversão de valores como uma característica contemporânea, onde a sociedade de massa busca cada vez mais lutar contra o anonimato, priorizando a visibilidade ao invés do conteúdo. Entretanto, ele explica que se nos primórdios o principal era a força física, já desde a Grécia Antiga, o que confere poder é o conhecimento, e não o capital. Em paralelo a isso, o historiador também tratou sobre o tempo. Por sermos seres que inevitavelmente morrem, o tempo é o valor mais precioso de todos. Assim, o foco e o bom uso do mesmo são fundamentais.

 

“Essa inevitabilidade torna o tempo uma questão central: ao comprar um produto, dou em troca de um bem durável o meu único bem absoluto, que é o tempo.” explicou o professor.

 

Como você consome o seu dia? Como gasta o seu tempo? Essas foram algumas das provocações feitas pelo Leandro Karnal, a fim de estimular a reflexão a respeito do reconhecimento com o mundo e suas transformações.

 

O intelectual ressaltou a importância de cultivar um pensamento disruptivo, a fim de constantemente quebrar paradigmas e fugir de modelos. Inteligência, criatividade e iniciativa: essas condições caracterizam a inovação, que deve ser sempre, constante. Karnal finaliza a apresentação afirmando que para isso não há mágica, não há outra saída, senão protagonizar o trabalho através do conhecimento e da boa aplicação do tempo.

 

Cases de Transferência e Licenciamento de Tecnologia: Vonau Flash e Gordura Saudável

 

Com o propósito de ilustrar como a parceria entre universidades e empresas pode trazer grandes resultados ao setor produtivo, a USP e a UNICAMP trouxeram cases de sucesso.

O primeiro a ser apresentado foi o remédio para enjôo com efeito instantâneo, Vonau Flash, desenvolvido através da parceria USP (Prof. Dr. Humberto Gomes Ferraz) e BIOLAB. Dr.ª Flávia Vicentin, Agente de Inovação no Polo Ribeirão Preto da USP, explicou ao lado de Paulo Carvalho, Especialista em Projetos Tecnológicos e Inovadores da Biolab, que o caso iniciou com uma pesquisa em conjunto, vinda de uma problemática trazida pela empresa.

 

O contrato foi assinado em 2005, e a patente concedida em 2018, sendo hoje considerada a maior fonte de royalties da USP. O grande diferencial do medicamento é a rápida eficácia e fácil administração, permitindo a absorção via oral mesmo em crises fortes.

 

Dr.ª Flávia ainda apresentou o Programa de Parceiros Tecnológicos da USP, que busca promover convênios de pesquisas colaborativas, aproximando as unidades das demandas do setor produtivo, mantendo o princípio acadêmico de pesquisa e inovação. Junto com a Caixa Econômica Federal, foi criado o espaço CaixaLab em São Paulo.

 

Paulo Carvalho ressaltou que a chave primordial para a inovação é o conhecimento compartilhado, e reforçou a importância da interação entre universidades e empresas para a competitividade nacional e da sociedade brasileira.

 

O segundo caso de sucesso é da Agência Inova Unicamp, que tem mais de 150 patentes licenciadas ativas, sendo a maior agência patenteadora e licenciadora do Brasil. Patrícia Leal, Diretora de Propriedade Intelectual da instituição, ressaltou que os processos de transferência e licenciamento de tecnologia são de longo prazo e demoram para trazer retorno, sendo necessário perseverança e maturidade dos profissionais em enxergar o potencial valor a ser agregado exponencialmente.

 

A Diretora explicou que esse case também surgiu de uma demanda da empresa parceira, que prefere não ser identificada, em desenvolver uma gordura mais saudável e não hidrogenada como um ingrediente economicamente viável.

 

Patrícia esclareceu que nesse caso houve o licenciamento também com a Cargill, uma empresa B2B, e após três anos de desenvolvimento do projeto de forma colaborativa, foi depositado o primeiro pedido de patente, que foi concedida e internacionalizada. Também foi licenciado o pedido associado ao know-how, e a distribuição de ganhos econômicos deu-se por milestones, conforme a tecnologia ia atendendo as demandas da empresa.

 

A Agência Inova Unicamp, no entanto, observando o sucesso do produto no mercado, se antecipou e criou a 2ª geração dessa tecnologia, produzindo uma gordura premium. Essa segunda patente foi registrada em tempo recorde, em apenas 3 meses e meio, através do Sistema Prioritário de Patentes, que foi internacionalizada e depois nacionalizada.

 

Encomendas Tecnológicas

 

Marco Aurélio Braga, sócio no MAB Advogados, abordou as encomendas tecnológicas, uma das ferramentas que existe desde a Lei da Inovação. O advogado explicou que o principal desafio era conseguir fazer com que o Estado, que é o grande gestor de orçamento, estruturasse uma forma de ele próprio encomendar as tecnologias de acordo com as suas demandas.

 

O palestrante explicou que em outros países, como os EUA, o Estado tem o hábito de investir milhões de dólares nas agências de inovação, mas que no Brasil esse processo é mais complicado, pois há uma grande possibilidade de haver uma repercussão pública negativa. Dessa forma, a questão pública está contaminada pelo medo das partes se envolverem e acabarem relacionadas com essa possível repercussão negativa.

 

No Decreto da Lei de Inovação, Cap. 5, Sessão 5, há artigos que viabilizam que o Estado encomende, diretamente ou por meio dos seus órgãos, tecnologia com todos os tipos de instituição. Ou seja, já há a regulamentação que permite que as demandas do órgão público sejam atendidas por uma encomenda tecnológica. O advogado defendeu que há formas de estabelecer essa parceria com o Estado sem que as iniciativas privadas saiam prejudicadas.

 

Para isso, é necessário utilizar a tecnologia de custo-efetiva, a qual há um investimento imediato, mas o custo público a longo prazo é reduzido devido à tecnologia desenvolvida. Marco utilizou como exemplo São Paulo, uma das cidades que mais compra ou mantém semáforos por ano no mundo. Nesse caso, esse investimento seria retornado com a redução da compra de novos semáforos a longo prazo. Dessa forma, o advogado terminou a palestra compartilhando informações de como proceder com essa parceria de forma a resultar em êxito para ambas as partes, através das especificações do Artigo 27 da Lei da Inovação.